Escrever sobre um assunto no calor dos acontecimentos sempre gera o risco de se fazer juízos prematuros e basear argumentos em informações pouco confiáveis. Mas às vezes se calar também é perder o momento em que dizer alguma coisa é relevante.
Duvido que qualquer pessoa que pertença de alguma maneira à "comunidade USP" não esteja abalada com o assassinato de Felipe, aluno da FEA, no estacionamento. A morte choca por ser na USP, que parece tão apartada do mundo real dos noticiários policiais. Choca por ser um garoto jovem, esforçado, com um futuro pela frente, e não uma pessoa já "perdida para a criminalidade" nas periferias de São Paulo. Choca por ser tão próximo, pela possibilidade de ter sido qualquer um de nós ou das pessoas de quem gostamos, e não distante como um outro mundo desses que coexistem no nosso perímetro urbano. Por isso mesmo é preciso, sem deixar de se chocar, pensar porque nos chocamos e o que isso pode despertar em termos de conclusões, sentimentos, gestos.
Isso é muito importante para que não aparelhemos esta morte tão trágica e singular em uma série de dispositivos discursivos há muito presentes, que se municiam de palavras de ordem cristalizadas e independentes dos eventos. Nesse momento simplesmente gritar por mais segurança no campus, mais policiamento ostensivo, é conceder a própria capacidade de pensar e sentir empatia a uma lógica outra. E, mais do que tudo, é preciso pensar e sentir empatia.
É preciso questionar-se porque tem acontecido sequestros relâmpagos nas imediações dos bancos. Então, é preciso pensar que plano diretor da USP permitiu que se montasse uma Praça com uma dúzia de agências bancárias sem garantir segurança na circulação de seus funcionários e clientes. Porque se em 2011 estão acontecendo sequestros relâmpagos e a trágica morte de Felipe, em agosto de 2010 homens disfarçados de estudantes assaltaram a agência do BB no campus de São Carlos, e em dezembro foi a vez da agência no campus de Bauru. Em 2008 agências daqui do Butantã foram assaltadas também, rendendo também uma amiga minha, bancária e na época cursando Letras. Em suma, a prevenção começa muito antes da constatação de que deveria haver mais polícia armada, mas a de pensar nos riscos potencializados pelo conglomerado de bancos em uma área grande, erma e com várias linhas de evasão para ataques organizados. Começa em discutir a real necessidade desses bancos estarem ali, e que contrapartida as instituições financeiras oferecem por construir suas agências em espaço público, gerando risco, além da grana (sic) que repassariam à USP. Antes de tirar soluções da cartola, como mais policiamento ostensivo e câmeras de segurança, sem examinar se isso seria suficiente para coibir atos criminosos e se isso não engendraria novos riscos (quem tem acesso às imagens das câmeras, com que finalidade? Que tipo de interação a polícia teria com quem circula no campus, como fazer com que eles não reproduzam os estereótipos que agridem a criminalizam os pobres e negros?). A presença dos bancos na USP não é algo dado, mas um processo razoavelmente recente, mal discutido e mal planejado. É preciso discutir a USP em sua geografia, em sua manutenção, sua infraestrutura de locomoção, iluminação. Em suas escolhas na alocação dos espaços e terrenos.
É preciso lembrar também que a violência em qualquer parte não é apenas gerada de fora para dentro. é muito fácil fazer sempre do "outro" o inimigo, especialmente quando ele não tem cara e corpo, e qualquer "outro" pode se tornar suporte para acusações. Já começaram a apontar os dedos para a São Remo, favela que fica ao lado do campus e onde reside uma parte considerável dos funcionários da USP (dos cargos que ainda não foram terceirizados e precarizados). Esquecem-se que a USP não é feita só de professores e alunos, que existem diversas relações com a comunidade, seja pelos serviços oferecidos seja por uma questão de coexistência. Além disso, esquecem-se também de que, assim como assaltantes podem facilmente assumir a aparência de alunos, a "comunidade USP" pode praticar seus próprios crimes. Falo isso como alguém que já teve a carteira furtada de dentro da sala de aula por algum colega, mas também por saber com certa frequência de casos de ameaças, agressões e violência contra a mulher - casos que não envolvem ninguém de fora.
Uma universidade que busca minimamente a pluralidade, ou que realisticamente enfrenta o fato de se massificar, precisa saber que a fronteira da "comunidade USP" é intraçável, e que esta não é certamente a forma de tornar o campus mais seguro.
3 comentários:
Ana, mandou muito bem!
Muito bom o texto!
Muito bom!
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