Há um belo trecho do Rua de Mão Única do Benjamin que diz:
Primeiros Socorros
Um bairro extremamente confuso, uma rede de ruas, que anos a fio eu evitara, tornou-se para mim, de um só lance, abarcável numa visão de conjunto, quando um dia uma pessoa amada se mudou para lá. Era como se em sua janela um projetor estivesse instalado e decompusesse a região com feixes de luz.
Quantas vezes não senti isso nos emaranhados paulistanos, quando passei a frequentar lugares que antes via só de passagem, por anos a fio muitas vezes. Penso que estou vivendo isso agora com o centro de São Paulo, já que estou estudando no Largo de São Francisco e as paisagens do Anhangabaú, Sé, República, tornaram-se cotidianas, diárias para mim. Falta-me talvez a pessoa amada no centro, pois muitas das pessoas que amo vivem nos arredores do Butantã. Mas já há um sentido vago de pertencimento formando-se.
Meu senso de direção sempre foi um sentido bastante prejudicado em mim. Reza o senso comum que meninas tem um péssimo senso de direção, em contraposição à sua capacidade de lidar com múltiplas tarefas simultaneamente. Eu acreditei nisso quando adolescente e via isso ser revelado na extrema habilidade do meu irmão em percorrer fases e telas imensas de jogos de videogame quando eu tinha sempre que acessar os mapas nos menus. Imbuída de um espírito hoje mais antropológico e feminista, pronta a suspeitar de todas as naturalizações apriorísticas de gênero, com fundamentações biológicas deveras questionáveis, eu fico me perguntando se o que não ocorre é um aleijamento de atributos que nos obrigamos a não utilizar por sermos mulheres e delegarmos a tarefa de se localizar aos XY. Uma mãe de classe média que é a motorista de sua família, tendo que levar crianças na escola, no médico, nas atividades extracurriculares e nas casas dos amigos provavelmente tem um domínio de ruas e caminhos invejável. Isso me lembra muito Hertz, em seu artigo sobre a preeminência da mão direita, examinando como culturalmente pegamos um leve traço anatômico e o exacerbamos, tornando nosso uso da mão esquerda fraco muito mais por conta de uma necessidade de categorização e hierarquização binária do que por inabilidade inata.
Andando pelas ruas de cidades europeias, calhou de eu me tornar constantemente a guia do meu grupo de amigos. Com o mapa de Lisboa, Barcelona, Paris e Roma nas mãos, escolhia caminhos a pé ou pela intrincada rede de metrôs dessas cidades para chegarmos aos pontos turísticos, ao hostel ou ao aeroporto. Consultava o mapa menos do que eu supunha e me

perdi muito pouco. Bem diferente da experiência de dois anos atrás, quando eu andei sozinha por Paris e Amsterdã. Obviamente houve treino acumulado, mas a maior mudança era a sensação confiante de certeza. E também o papel de mamãe ganso que me coube, enfileirando meus amigos e amigas atrás de mim, ciosa de não perder ninguém nos túneis fétidos do metrô parisiense ou nas ladeiras de Lisboa.
Esses bloqueios que causamos a nós mesmos e/ou causados pelas relações socioculturais me intrigam. Parece que há uma libertação quando finalmente conseguimos estranhá-los e nos desenvolver num determinado sentido. Também quando superamos a noção de dom e talento para coisas que não exigem habilidades sobrehumanas. Espero um dia ter esse estalo quanto ao senso de ritmo, no qual eu também sou bem ruim.
1 comentários:
Welcome back to Brazil!!
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