domingo, 6 de março de 2011

Os habitantes não-humanos da minha casa

Uma das coisas mais ingênuas do Ocidente é que, ao colocar o homem no centro de todas as coisas, passou-se a achar que só os humanos tem agência. E a vida nos prova cotidianamente que isto não é verdade, que somos o tempo todo atravessados por outras forças que podem não ter o mesmo tipo de volição que nós temos, mas que nos olham, agem e reagem à nossa presença, e também entre si.

Toda casa possui muitos habitantes além dos seres humanos. Aliás, a própria fronteira entre os humanos e a casa é muito porosa, uma vez que deixamos pela casa nossas velhas cascas, pedacinhos de pele morta que compõem a poeira doméstica. Aqui em casa, uma república com um contínuo entra e sai de moradores e moradoras, hóspedes mais ou menos permanentes, namorad@s e peguetes, deve ser sempre possível encontrar uma amálgama de amostras de dna entre as frestas do piso, formando a matéria prima para algum tipo de magia simpática. E além da pele os fios de cabelo - de modo geral, minha casa tem sido uma casa de cabeludos - que conseguem ir se encontrando pelo chão e formando pequenos tumbleweeds, como em um filme de faroeste, girando pelo chão da casa até encontrarem as fibras implacáveis de uma vassoura.

Mas há os habitantes não humanos, deixando rastros de sua presença que não são assim tão orgânicos, mas deveras materiais. Hoje, por exemplo, quando me levantei de manhã encontrei a pia da cozinha e a mesa cobertas de louça suja, muito mais louça do que dois ou três seres humanos são capazes de produzir. Uma mente cerceada pela racionalidade ocidental moderna olharia para aquilo, pensaria que é um trabalho de acúmulo, como um sítio arqueológico de sambaquis. Mas sabemos que isto não é verdade, porque a casuística me obriga a lembrar que ontem de manhã eu também lavei louça enquanto esquentava água para o café. Uma mente apavorada pelos demônios cotidianos que vem tentar homens e mulheres afastando-os do caminho do Senhor poderia pensar que a cozinha precisa é de um bom exorcismo e chamaria seu padre ou pastor. Mas sabemos que a entidade que suja a louça enquanto dormimos é inofensiva, mesmo que ecologicamente incorreta por nos fazer gastar mais água e sabão. A louça que amanhece na pia é responsabilidade de um danado de um saci. Frustrado por não ter crinas de cavalo para dar nó, leite para talhar ou carvão em brasa para brincar, o saci vem de noite e suja a nossa louça.

Além do saci, minha casa é constantemente visitada por São Longuinho, o santo mercenário. Eu demorei um pouco para perceber a presença de São Longuinho, porque o saci também tem a fama de esconder as coisas. Mas logo eu percebi que havia um conluio do saci com outra entidade, e que só podia ser São Longuinho. Coisas sumiam constantemente, mudavam de lugar - pen drives, chaves, isqueiros, abridor de latas, carregador de celular. Algumas delas reapareciam, mas só quando era tarde demais. Se fosse responsabilidade do saci, eu teria que jogar uma peneira em seu redemoinho e roubar sua carapuça. Mas São Longuinho é um santo capitalista, consegue entender um denominador comum, quantitativo e abstrato para as trocas. Sua moeda são os pulinhos que prometemos toda vez:
São Longuinho, são Longuinho
Se você devolver meu cartão do banco
Eu dou 3 pulinhos
São Longuinho se tornou ambicioso aqui em casa, um terreno perfeito para suas atividades comerciais. Começou a sumir sistematicamente com um monte de coisas. E só devolvia se eu aumentasse o número de pulinhos. Logo logo eu estaria até entrando em forma só para pagar São Longuinho. Decidi dar o calote nele e ele sumiu com o meu RG uns dias antes de eu viajar no Natal. Achei-o anteontem, junto com os meus alicates de unha. Nisso, já tinha tirado um novo.

Outra moradora daqui de casa é a fantasma que mora no banheiro, na privada mais especificamente. Seu nome é La Cantante, e ela é uma alma atormentada, constantemente em busca de atenção. Quando a gente puxa a descarga, ela nos dá alguns momentos de paz, mas basta a caixa da privada encher que ela começa o seu lamento agudo e estridente, parecido com uma chaleira amplificada. A mente ocidental obviamente já percebeu que se trata de ar escapando pela bóia. Mas nós sabemos que abrir a caixa e puxar a válvula da privada para ela silenciar é apenas uma maneira de confortar La Cantante, para que ela nos deixe em paz.

Um outro morador fantasmagórico não está mais entre nós. Trata-se do espírito que assombrava o quarto de frente para o banheiro. Ele morava lá e exalava um cheiro meio forte, cheiro de roupa suada com mofo. O espírito fedido esteve lá por sucessões de moradores, mas foi embora quando o Jão se mudou para cá. Ou então está escondido, esperando uma oportunidade de se manifestar novamente. Afinal de contas, ele é incômodo mas é como se fosse da família.

2 comentários:

Denise Lícia disse...

Muito bom, Aninha, parabéns.
Acho que a falta da crina dos cavalos explica muito bem o porquê do sumiço do meu cartão de estacionamento do trabalho... Ou será que foi o santo? só porque ele é gordinho, ele quer que a gente fique fazendo exercício a toa? (não sei bem, mas eu imagino São Longuinho como aquele santo que caia do céu naquela propaganda de carro)...
Deixa eu parar de viajar na maionese, né?
Beijos

Ana disse...

Graaande mestra Delícia.
Saudades de você, ex-moradora ilustre da Taverna. Você não chegou a conhecer a La Cantante. Sorte sua.
Beijocas