Eu deveria estar estudando para a
prova de mestrado, mas não estou. Eu poderia até me sentir culpada pela falta de sistematização dos meus esforços, ou por meu pessimismo de achar mesmo que eu não vou passar, ou de passados vários meses ainda não ter conseguido resolver a minha vida afetiva com o ex(ou não) de modo que isto interfere nas minhas decisões, mas a verdade mesmo é que eu sei mesmo que estou no
canto do cisne da minha vida estudantil. Ano que vem, a pensão acaba, eu tenho que arrumar um emprego, a falta de um currículo profissional me apavora um pouco mas a idéia de uma rotina automatizada num trampo qualquer me seduz de uma maneira perversa. Acho que por isso quero chafurdar um pouco na irresponsabilidade, acordar às 9 horas da manhã e ficar ouvindo meus heavy metal adolescentes, entrando e saindo de blogs e twitters, lendo artigos que não são bibliografia de nenhuma disciplina, pensando na aventura de RPG que eu quero mestrar a noite...
Antes de viajar para a Holanda eu fui com o ex ver
O Anticristo. Na verdade eu trapaceei, ele queria ver
Se Beber, Não Case, mas eu não tava a fim de ver um filme sobre um bando de marmanjos se comportando como ogros. Esse tipo de filme tem que ser visto nas nossas repúblicas com a galera, porque a jocosidade é a base da nossa sociabilidade e nesse contexto não se torna ofensiva. Então, na hora de comprar os ingressos, comprei para O Anticristo. Só sabia que era um filme de terror do Lars von Trier, que eu amava por
Dogville e odiava por
Dançando no Escuro.
Amo filmes tensos. Cinema para mim tem que ser
tenso. Quando eu assisti O
nde os Fracos não Tem Vez, que eu evitava respirar no cinema de tanta tensão. Ou quando eu assisti C
enas de um Casamento, do Bergman, em casa com a Carol, que a gente ficou horas assistindo, entontecidas, não perdendo uma nota do diálogo. O Anticristo é tenso, de um jeito inebriante. A primeira cena é tão linda que dá vontade de chorar. O casal transando com tanta voracidade, que você vê melhor as cores do sexo deles por estar em preto e branco e o sente no próprio corpo. Enquanto isso o bebê deles abre a janela e cai, e você vê, mas o casal não (parece). A música é linda. É desesperador.
Então, pensamos, é um filme sobre luto. Mas no fundo acho que o luto é um pano de fundo para outros assuntos que o filme trata. O Anticristo é um filme sobre
Natureza X Cultura, e as homologias dessa dicotomia fundante. A mãe pesquisa feminicídio, está escrevendo sua tese. O pai (putz, que tesão pelo Defoe, nunca imaginaria!) é um psi-algo. Ele é maior que ela, ele a está guiando pelo seu luto natural de fêmea que perdeu a cria. O luto não diz respeito a ele, ele quer trazer ordem ao caos. O luto é o
caos. A mulher é o caos. Porque a mulher é sempre colocada do lado da natureza, e o homem da cultura. O marido assume o papel liminar de marido e terapeuta, enquanto ela manifesta toda a intensidade e a volúpia da dor. E é pela dor que ele quer guiá-la de volta à ordem, quer colonizar a natureza e as emoções, com a civilização e a razão de homem culto esclarecido.
Então eles vão para a cabana na floresta, e a natureza emerge em todo o seu potencial de fagocitose. A natureza que ele quer domar mentalmente e ela quer se entregar em uma celebração autodestrutiva. São cenas fortes, no eixo luto-culpa-sexo. O sexo é o mediador entre natureza e cultura. Ele usa o sexo para domá-la, controlá-la, ela reage com o sexo autofágico. Nessas cenas, quando ela paralisa, e depois sai tresloucada, quando ela tenta aprender a andar (que metáfora rica, gente, quero ser o Lars von Trier quando crescer!), todo o nosso corpo está com o corpo dela. Nesses momentos, eu desgrudei por um momento do filme para perceber se eu tinha vontade de me cortar, como eu fazia antigamente. Porque não é todo mundo que é capaz de entender a pulsão da dor, da morte, culpa e êxtase. O interessante é que não, que essa poesia corporal toda eu podia sentir sem ter o comportamento mimético, e isso me deixou profundamente satisfeita comigo mesma. Estranho também. Não consegui até hoje fazer o balanço do papel da automutilação na minha vida. Passou, mas está lá. Sobrevive a coisa das intensidades. Quando eu queria pesquisar isso, fui procurar em
Artaud, mas não aprofundei. Precisava tirar um tempo e ler o Deleuze, o
Mil Platôs.
Mas enfim, uma sutileza do filme é que o marido, que tenta salvá-la o tempo todo está de fato matando-a o tempo todo. Ele a mata para poder sobreviver, porque ele não pode viver no caos. Desde o começo ele se apropria dela, quando exige que ela se entregue a ele, ele a está matando para que ele sobreviva. E eu assistindo isso com o ex ao meu lado, vendo na tela cenas que a gente passou juntos em 2007. E é supercomplicado de entender, porque ela estuda o feminicídio mas passa a aceitá-lo e a desejá-lo, a assumir a culpa coletiva das mulheres pelo mal. Por isso, ela deve encarnar o mal, concretizá-lo, desempanhar o seu papel. Ela mutila o filho, como um aviso do poder devastador da fêmea. Ela também reconhece a matança das mulheres como processo civilizador. E é uma puta crítica da razão, porque conduz à barbárie. O caos reina, no final.