domingo, 8 de novembro de 2009

Minissaias

Lindo poema, raduzido por Raphael Neves e publicado, entre outros lugares, no New York Kibe.

Dos "Monólogos da Vagina"
por Eve Ensler

Minha minissaia não é um convite
uma provocação
uma indicação
do que eu quero
ou dou
ou que eu flerto.

Minha minissaia
não está implorando por isso
não está querendo que você
a arranque de mim
ou a abaixe até o chão.

Minha minissaia
não é um argumento jurídico
para você me violentar
ainda que já tenha sido
e não vai servir de prova
em nenhum tribunal.

Minha minissaia, acredite ou não
não tem nada a ver com você

Minha minissaia
tem a ver com a descoberta
do poder das minhas pernas
e do ar frio do outono passeando
pelo interior das minhas coxas
tem a ver com tudo o que eu vejo
ou passo ou sinto viver dentro de mim.

Minha minissaia não é prova
de que eu seja estúpida
ou indecisa
ou uma menininha maleável.

Minha minissaia é meu desafio
e você não vai me amedrontar
Minha minissaia não está se exibindo
é esta que eu sou
antes que você me faça cobri-la
ou disfarçá-la.
Acostume-se.

Minha minissaia é felicidade
Eu posso me sentir no chão.
Sou eu qui. E eu sou gostosa.

Minha minissaia é liberação
bandeira no exército das mulheres
Eu declaro estas ruas, quaisquer ruas
o país da minha vagina.

Minha minissaia
é água azul turquesa
onde nadam peixes coloridos
um festival de verão
na escuridão estrelada
um pássaro cantando
um trem chegando em uma cidade estrangeira
minha minissaia é um rodopio
um suspiro profundo
um passo de tango
minha minissaia é
iniciação
apreciação
excitação.

Mas acima de tudo minha minissaia
e tudo que ela cobre
é Meu.
Meu.
Meu.

sábado, 7 de novembro de 2009

Da segurança que faz mal


Segundo reportagem do Estadão os alunos da UNIBAN aguardavam o retorno da garota que eles agrediram no dia 22 usando narizes de palhaço, para defender mais uma vez seu "ambiente escolar", conforme a própria instituição definiu o linchamento moral bárbaro que ocorreu. Ela não voltou e não voltará mais, pois a UNIBAN concluiu que era ela a culpada e tratou de expulsá-la. Os outros alunos podem se sentir mais uma vez seguros. Seguros de que sua formação pessoal e profissional será marcada pela intolerância e pelo autoritarismo. Seguros de que serão tratados como materiais em uma linha de montagem que passa por apostilas pobres, professores mal pagos e cerceados e currículos enxugados. Seguros de que toda a violência e opressão diariamente praticada contra eles continuará a ser legitimada pelo senso comum e toda a contestação e resistência serão devidamente esterelizadas. Seguros de que suas colegas ainda serão suspeitas de se prostituírem para pagar as mensalidades, como é o mito corrente, mas jamais poderão alimentar esse mito com qualquer expressão não sancionada de sexualidade. Seguros de que enfrentarão uma competição desleal no mercado de trabalho e que os milhares de cursos de pós-graduação lato senso que farão com muito custo não serão diferenciais o suficiente em seus currículos, tristes mapas de suas trajetórias de vida.

Mais uma vez deixo aqui (e aqui) o meu total repudio aos eventos ocorridos na UNIBAN e à instituição. O que ocorreu é uma ofensa aos direitos individuais mais básicos dos cidadãos brasileiros. Espero que o MP ou algum órgão responsável tome providências.

Geisy, estou com você!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Adeus ao mestre

O primeiro texto que eu li de Lévi-Strauss foi Raça e História, criado para a UNESCO, no primeiro semestre da faculdade. E até hoje eu acho um dos textos mais belos que já li. A mais contundente aula sobre o valor da diversidade cultural já escrito. Eu ficava ansiosa para chegar logo Antropologia 3, que era um semestre inteirinho dedicado a ele. E minha professora foi a Dominique, que é uma pessoa incrível. No final a gente sempre passa meio correndo pelas Mitológicas, por conta das greves anuais da USP. Mas lê integralmente o Estruturas Elementares do Parentesco, o Totemismo Hoje, parte de O Pensamento Selvagem (fundamental para a minha pesquisa sobre RPG, ainda que eu não o cite!) e textos essenciais do Antropologia Estrutural, como o "A eficácia simbólica" e "O feiticeiro e sua magia" .

Lévi-Strauss era, como todo bom francês, um universalista. Estava interessado no intelecto humano, nas formas estruturantes que a tudo organizam, a linguagem, os mitos, o parentesco. ele elevou as ciências humanas a um novo patamar, dialogando com a história, a linguística, a psicologia. Espezinhou e foi espezinhado por seus pares. E persistiu.

Fazendo piada com a idade dele, eu sempre dizia que ele era um lich, um vampiro que sugava os outros antropólogos para se manter, utilizando algum ritual que ele descobriu nas monografias que leu. Mas na verdade, Lévi-Strauss foi quem doou uma imensa energia para todos nós. Fica aqui a pequena homenagem de alguém que acha que entendeu um pouquinho do que Lévi-Strauss tentou nos ensinar e que o terá sempre em mente.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De todas as piadas sobre o caso da aluna da UNIBAN que eu li por aí, só teve uma que eu realmente achei engraçada, embora igualmente trágica. Foi na comunidade da USP no orkut: "Se tivesse a UNIBAN virtual, nada disso teria acontecido".
É engraçado, mas não é verdade. A Mary W falou belamente sobre a perda da experiência de liberdade que a comunidade universitária proporciona, quando os alunos são vistos como clientes e o administrativo é mais importante que o pedagógico. Eu concordo com ela que não é apenas isso que torna os alunos uma horda, e é claro que tem toda uma estrutura machista e autoritária que é acionada por quem incita, tocando numas cordas emotivas. Por outro lado o Ensino à Distância tal como vem sendo implementado parece ser o auge da perda da experiência, porque não há muito contato presencial e não há aquela experiência de corredor, de conversas misturadas naquilo que parece ser a idéia original de uma universidade. Agora, linchamentos morais acontecem online de modo tão eficaz quanto offline, como mostram inúmeras histórias de vídeos e fotos "comprometedoras" que ex-amantes colocam no ar, cyberbullying entre alunos de escolas particulares, etc. A própria história da UNIBAN só ganhou toda essa repercussão por causa do vídeo colocado no ar com um título violento, que foi linkado na denúncia do blog Boteco Sujo.
O linchamento moral online é talvez ainda mais grave, porque ele se propaga no tempo e por vezes se apresenta como novidade repetidamente. Estou pensando no caso de Ouro Preto, claro. Os acusados foram ameaçados por seus próprios colegas (de uma universidade FEDERAL!) e linchados pela mídia e pela internet por pelo menos 08 anos, em meio a desinformações e descontextualizações. Talvez se a aluna da UNIBAN cursasse EaD, ninguém poderia perceber o tamanho do seu vestido (e alguém ainda acha que o que aconteceu tem alguma coisa a ver com o vestido?), mas alguma coisa de seu "jeitinho" poderia igualmente servir para colocá-la como objeto de ódio comum e suscitar o mesmo tipo de barbárie.
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Mudando de assunto. Gente, o Lévi-Strauss morreu. Eu estou bege! O Lévi-Strauss não era um mortal, ele faz parte de um desses panteões fora do tempo linear. Eu estou sentindo o mundo tão frágil...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sobre o caso da UNIBAN

Algumas pessoas estavam passando links no twitter sobre o que parecia ser um caso de estupro. Entrando em alguns deles, achei dois vídeos no Youtube (que não vou linkar) e o do blog Boteco Sujo, que eu já visitei algumas vezes. No blog um post chamado "Polanskis do ABC" narrava a história de uma menina que foi com uma roupa curta pra faculdade, foi cercada e ameaçada pelos colegas e só conseguiu sair com escolta policial, enquanto os colegas a xingavam. Depois de ler os sites e ver os vídeos, eu fiquei muito assustada. Mesmo.

É difícil até saber por onde começar. Estou lendo para a matéria de metodologia uma parte de uma dissertação de mestrado que fala sobre a violência entre meninas no contexto escolar. Não avancei muito, mas a idéia é problematizar tanto a idéia de escola, quanto a de violência e de gênero. Defende-se que a escola tem o papel de natalidade, de fazer nascer o indivíduo para a vida pública, numa apropriação dos conceitos da Hannah Arendt. E aí eu fiquei pensando, que em uma universidade, é um pouco disso que se trata. Da esfera pública. De política.

Em uma conversa, um amigo disse que achava estranho qualquer pessoa sair de seu caminho para ir pentelhar a menina. Também acho, respondi, e ainda mais estranho que seus colegas não a tenham defendido (depois eu li sua entrevista, em que ela diz que foi ajudada por sua classe). Isso meu amigo não achou estranho. Na concepção dele, ninguém tinha nada a ver com isso. Mas é a turba, respondi, e é ela que me assusta. Porque aí não há ação, não há diálogo e convencimento. É o autoritarismo em sua forma mais pura.

O que aconteceu é fruto de um machismo ubíquo, presente nos alunos e alunas da UNIBAN (mas poderia ser qualquer outro lugar, poderia ter sido a USP!). Da microfísica do poder que regula o corpo feminino, que culpabiliza a mulher pela lascívia, pelo pecado, por ser estuprada, por ter sexualidade, por ser bonita, por ser feia. Mas é também outra coisa. É a massa em um movimento destrutivo, irrefletido. Esse coro de "puta, puta" não é apenas um linchamento moral (e não estou minimizando os danos desse linchamento), é a barbárie, é o aniquilamento da esfera pública arendtiana. Os comentários de apoio ao coro que vieram depois, são só os ecos desse processo de desumanização pelo qual todos passaram.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Licenciaturas e licenciosidades

Como todos sabem, fazer licenciatura é o sonho de todo aluno da facul. Ter mais matérias para fazer; uma bibliografia nova; frequentar o prédio da faculdade de educação; ter contato com professores diferentes e engajados; estar em turmas mistas, onde há uma rica integração entre alunos das exatas, humanas e biológicas; e preparar-se para a nobre carreira docente, trabalhando para a formação das futuras gerações e o progresso da nação. Não é lindo?

Feliz ou infelizmente as coisas não são bem assim. Pelo menos no meu curso. O meu curso é cheio de clivagens. Começa por quem vai para a Antropologia, para a Sociologia ou para a Ciência Política, sendo que a sociologia é bem meio termo. Futuros antropólogos quase não fazem matérias de política e politicólogos fingem que a antropologia não existe. O curso é todo feito para preparar os alunos para o mestrado e doutorado, para virarem professores pesquisadores universitários, mas todos sabem que esta é uma realidade para poucos. Os politicólogos vão trabalhar com todo tipo de consultoria depois, ou viram economistas por fora. Alguns fazem mestrado e prestam Rio Branco. Os sociólogos vão trabalham em órgãos públicos, ou ongs, ou institutos de pesquisa. Os antropólogos também, mas em áreas um pouco diferentes. Vários vão pras artes. Quando sociólogos e antropólogos defendem o doutorado, são demitidos das universidades particulares.

Nesse contexto a licenciatura entra por três vias: aqueles que passaram a acreditar que não tem capacidade (e saco) de virar professores doutores, fazem licenciatura para ter uma alternativa de emprego; aqueles que estão na pós, fazem a licenciatura para trabalhar enquanto a bolsa não vem; e tem um ou outro que acha que tem vocação para ensino, e entra na licenciatura com o ideário escrito aí em cima. Eu pessoalmente, que sou uma pessoa indecisa mesmo, já passei pelos três tipos, embora ainda não esteja na pós. Tirando este último grupo e parte do segundo, todos os alunos tendem a pensar a licenciatura como algo de valor menor, quer optem por fazê-la, quer não. Politicólogos não fazem licenciatura de jeito nenhum. Licenciatura é vista como algo para quem não deu muito certo no curso. Aposto que o pessoal da filosofia é meio assim também. O povo das exatas tem idéias ainda mais estranhas, alguns vão fazer licenciatura porque querem matérias de "humanas" para relaxar, enquanto não arrumam trainees na indústria ou qualquer coisa assim.

Anyway, o que não contam pra gente é que a licenciatura é loteria. Você nunca sabe o que o/a espera, porque cada professor dá o curso como quer. A princípio isto é ótimo, porque dá espaço para a poiesis do professor, para a pluralidade pedagógia, etc. Por outro lado, não parece haver muita preocupação com a coesão do curso. Correndo o risco de cair num pragmatismo bobo, eu tive que engolir cada assunto bobo e inútil. A primeira matéria que eu fiz era de chorar. Tenho duas pastar entupidas de textos (não sei quantas páginas, mas foi uns 100 reais em xerox) que eu li e que não servirão nem para diletantismo intelectual, quanto mais para me tornar uma boa professora. Um outro professor deu uma excelente bibliografia (embora eu tenha ficado com Foucault saindo pelos poros) mas nas aulas ele se comportava como um chato ególatra meio fascista. Agora eu tenho um professor com pinta de sindicalista que faz umas análises muito rasas de legislação e as apresenta como a revelação da teoria da conspiração, criando aquele clima de "ah, agora nós sabemos a verdade. Como somos espertos..." entre os alunos. A aula que eu aproveito mesmo é a de metodologia, que tem uma bibliografia interessante e algumas boas discussões em sala, e que no fim das contas só tem alunos e ex-alunos do meu curso. Fica até parecendo bairrismo. Mas não é, acho que eu sou azarada. Tem gente com melhores histórias pra contar.

Tenho muitos colegas que nem vão às aulas. Assim como tenho colegas que não cumprem as horas de estágio obrigatório não remunerado. E colegas que abandonam a licenciatura por falta de motivação. E colegas que usam a licenciatura apenas para manter o vínculo com a universidade, ter carteirinha e bilhete único, e poder fazer estágio remunerado em empresas. Cumprir o estágio da licenciatura é difícil, as escolas são bem refratárias a receber estagiários, e o tempo é curto para cumpir as 200 horas. Eu juro que não sei se 200 horas é muito ou pouco, especialmente porque no meu curso quase não há regência, é só observação, e a maioria das escolas não permite muita interferência do estagiário. Em uma escola que eu cumpri 60 horas, eu ficava "etnografando" as aulas, mas às vezes o sono era maior, e às vezes eu usava o tempo de estágio para estudar para outras disciplinas. Tem coisas muito erradas aí...

E todo esse esforço para ganhar cerca de R$5,00 a hora no Estado? Haja vocação.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Anticristo - com spoilers

Eu deveria estar estudando para a prova de mestrado, mas não estou. Eu poderia até me sentir culpada pela falta de sistematização dos meus esforços, ou por meu pessimismo de achar mesmo que eu não vou passar, ou de passados vários meses ainda não ter conseguido resolver a minha vida afetiva com o ex(ou não) de modo que isto interfere nas minhas decisões, mas a verdade mesmo é que eu sei mesmo que estou no canto do cisne da minha vida estudantil. Ano que vem, a pensão acaba, eu tenho que arrumar um emprego, a falta de um currículo profissional me apavora um pouco mas a idéia de uma rotina automatizada num trampo qualquer me seduz de uma maneira perversa. Acho que por isso quero chafurdar um pouco na irresponsabilidade, acordar às 9 horas da manhã e ficar ouvindo meus heavy metal adolescentes, entrando e saindo de blogs e twitters, lendo artigos que não são bibliografia de nenhuma disciplina, pensando na aventura de RPG que eu quero mestrar a noite...

Antes de viajar para a Holanda eu fui com o ex ver O Anticristo. Na verdade eu trapaceei, ele queria ver Se Beber, Não Case, mas eu não tava a fim de ver um filme sobre um bando de marmanjos se comportando como ogros. Esse tipo de filme tem que ser visto nas nossas repúblicas com a galera, porque a jocosidade é a base da nossa sociabilidade e nesse contexto não se torna ofensiva. Então, na hora de comprar os ingressos, comprei para O Anticristo. Só sabia que era um filme de terror do Lars von Trier, que eu amava por Dogville e odiava por Dançando no Escuro.

Amo filmes tensos. Cinema para mim tem que ser tenso. Quando eu assisti Onde os Fracos não Tem Vez, que eu evitava respirar no cinema de tanta tensão. Ou quando eu assisti Cenas de um Casamento, do Bergman, em casa com a Carol, que a gente ficou horas assistindo, entontecidas, não perdendo uma nota do diálogo. O Anticristo é tenso, de um jeito inebriante. A primeira cena é tão linda que dá vontade de chorar. O casal transando com tanta voracidade, que você vê melhor as cores do sexo deles por estar em preto e branco e o sente no próprio corpo. Enquanto isso o bebê deles abre a janela e cai, e você vê, mas o casal não (parece). A música é linda. É desesperador.

Então, pensamos, é um filme sobre luto. Mas no fundo acho que o luto é um pano de fundo para outros assuntos que o filme trata. O Anticristo é um filme sobre Natureza X Cultura, e as homologias dessa dicotomia fundante. A mãe pesquisa feminicídio, está escrevendo sua tese. O pai (putz, que tesão pelo Defoe, nunca imaginaria!) é um psi-algo. Ele é maior que ela, ele a está guiando pelo seu luto natural de fêmea que perdeu a cria. O luto não diz respeito a ele, ele quer trazer ordem ao caos. O luto é o caos. A mulher é o caos. Porque a mulher é sempre colocada do lado da natureza, e o homem da cultura. O marido assume o papel liminar de marido e terapeuta, enquanto ela manifesta toda a intensidade e a volúpia da dor. E é pela dor que ele quer guiá-la de volta à ordem, quer colonizar a natureza e as emoções, com a civilização e a razão de homem culto esclarecido.

Então eles vão para a cabana na floresta, e a natureza emerge em todo o seu potencial de fagocitose. A natureza que ele quer domar mentalmente e ela quer se entregar em uma celebração autodestrutiva. São cenas fortes, no eixo luto-culpa-sexo. O sexo é o mediador entre natureza e cultura. Ele usa o sexo para domá-la, controlá-la, ela reage com o sexo autofágico. Nessas cenas, quando ela paralisa, e depois sai tresloucada, quando ela tenta aprender a andar (que metáfora rica, gente, quero ser o Lars von Trier quando crescer!), todo o nosso corpo está com o corpo dela. Nesses momentos, eu desgrudei por um momento do filme para perceber se eu tinha vontade de me cortar, como eu fazia antigamente. Porque não é todo mundo que é capaz de entender a pulsão da dor, da morte, culpa e êxtase. O interessante é que não, que essa poesia corporal toda eu podia sentir sem ter o comportamento mimético, e isso me deixou profundamente satisfeita comigo mesma. Estranho também. Não consegui até hoje fazer o balanço do papel da automutilação na minha vida. Passou, mas está lá. Sobrevive a coisa das intensidades. Quando eu queria pesquisar isso, fui procurar em Artaud, mas não aprofundei. Precisava tirar um tempo e ler o Deleuze, o Mil Platôs.

Mas enfim, uma sutileza do filme é que o marido, que tenta salvá-la o tempo todo está de fato matando-a o tempo todo. Ele a mata para poder sobreviver, porque ele não pode viver no caos. Desde o começo ele se apropria dela, quando exige que ela se entregue a ele, ele a está matando para que ele sobreviva. E eu assistindo isso com o ex ao meu lado, vendo na tela cenas que a gente passou juntos em 2007. E é supercomplicado de entender, porque ela estuda o feminicídio mas passa a aceitá-lo e a desejá-lo, a assumir a culpa coletiva das mulheres pelo mal. Por isso, ela deve encarnar o mal, concretizá-lo, desempanhar o seu papel. Ela mutila o filho, como um aviso do poder devastador da fêmea. Ela também reconhece a matança das mulheres como processo civilizador. E é uma puta crítica da razão, porque conduz à barbárie. O caos reina, no final.